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Praia Grande festeja a rainha do mar

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A Festa de Iemanjá de Praia Grande é um dos eventos religiosos mais tradicionais do estado de São Paulo. Faz parte, inclusive, do calendário oficial. Foi regularizada pelo município no fim da década de 1960, mas era realizada, pelo que consta, muito antes da emancipação da cidade.

Registros e documentos comprovam que Praia Grande recebia religiosos para prestar homenagens à Rainha do Mar desde a década de 1950. Até hoje, essa é a maior festa de Iemanjá do estado, atraindo milhares de espectadores à cidade nos dois primeiros finais de semana de dezembro.

Por meio de suas federações, os próprios adeptos das religiões de matriz africana, especialmente a umbanda, organizam a festa com o apoio da Secretaria de Turismo, sempre ameaçado a cada ano. Além dos afro-religiosos, muitos espíritas, espiritualistas, católicos, esotéricos e sem religião estão entre os fiéis ou simpatizantes de Iemanjá.

A festa de Iemanjá é praticamente uma romaria.

Milhares de fiéis e adeptos, de diversas regiões do estado, montam suas tendas e terreiros ao longo de toda orla. Os rituais começam nas estradas, na descida da serra, com homenagens a Exu e Ogum. Na praia, além das oferendas lançadas ao mar, os toques e giras, com manifestação das entidades, passes e consultas, são um dos principais atrativos do evento.

Outros municípios do litoral sul de São Paulo aderiram à festividade e homenageiam Iemanjá na mesma época. A proximidade do fim de ano inspira a gratidão e os pedidos dos devotos. Muitos umbandistas também o fazem durante o réveillon, mas essa festa tem um caráter mais institucional e religioso, apesar de ser aberta ao público e atrair tantos turistas.

A popularidade de Iemanjá, sempre descrita com palavras de afeto mesmo por aqueles que não praticam as religiões de matriz africana, fez dela a divindade mais festejada em todo o Brasil. De norte a sul, são inúmeras festas, algumas bem famosas, como a do dia 2 de fevereiro, em Salvador.

Essa cultura tão rica, repleta de rituais e devoção, há muito extrapolou o espaço dos terreiros. Na Praia Grande, a predominância é da umbanda, diferente do que acontece nas celebrações da Bahia, dominadas pelo candomblé, mas se percebem o mesmo amor e a mesma emoção.

A data da festa de Praia Grande foi escolhida por força do sincretismo de Iemanjá com Nossa Senhora da Conceição, reverenciada em 8 de dezembro. Isso também explica as diferentes datas nas quais a divindade é celebrada pelo Brasil. Iemanjá representa a função social da maternidade e é considerada mãe de todos os orixás.

Uma enorme imagem de Iemanjá se destaca na paisagem da orla de Praia Grande. Trata-se daquela imagem que se popularizou: uma santa branca, com longos cabelos negros, vestindo uma túnica azul que se confunde com as águas do mar. A Iemanjá cultuada pelos iorubás nada tem a ver com essa Iemanjá brasileira, mas é preciso respeitar a fé do povo, que fez dessa devoção um ponto fundamental de sua identidade.

Entre as principais oferendas a Iemanjá, está tudo aquilo que remete à mulher e à beleza, já que se trata de uma divindade muito vaidosa. Perfumes de rosa e alfazema, sabonetes, talcos, batons, pentes e flores, geralmente arrumados em barquinhos ou balaios enfeitados de laços e fitas.

Muitos reconhecem e respeitam a cultura e a crença popular, exaltam sua riqueza e importância na construção da identidade do povo brasileiro e admitem a função espiritual da festa. Alguns veem, porém nessa devoção a Iemanjá uma série de problemas, principalmente de ordem ambiental.

Embora haja muita intolerância e racismo disfarçados de consciência e preocupação ecológica, não se pode negar que certas oferendas lançadas ao mar incluem resíduos e outros materiais que podem poluir.

Qualquer evento, religioso ou não, gera lixo. Procissões ou marchas pra Jesus também deixam seus rastros de sujeira, mas é preciso deixar bem claro que oferenda não é lixo.

A consciência ambiental tem crescido cada vez mais entre os adeptos da umbanda e do candomblé. O cuidado em não utilizar materiais que não sejam biodegradáveis e diminuir o tamanho e a quantidade das comidas de santo, além de recolher os detritos, tem sido frequentemente recomendado pelas lideranças.

A regra de usar nas oferendas tudo que for natural já tem sido adotada.

Dessa forma, plásticos, vidros, cerâmicas são sempre evitados. Oferta-se a bebida ou a comida, não a garrafa ou a vasilha. Todos os recipientes descartáveis podem ser substituídos por folhas. Para as religiões afro-brasileiras, a natureza é sagrada e cabe ao fiel a obrigação de preserva-la.

As festas e comemorações afro-religiosas do fim de ano, principalmente nas praias brasileiras, vêm sempre seguidas de muitas críticas, que se intensificam na mesma proporção em que crescem os casos de intolerância.

As homenagens a Iemanjá têm sofrido muitos ataques que usam como justificativa a quantidade de lixo deixada nas areias ou lançadas ao mar. Por isso, o cuidado dos organizadores em conscientizar os fieis também é cada vez mais necessário para que eventos como o da Praia Grande não sofram nenhum tipo de retaliação.

Por sua tradição, essa festa, que já chegou a reunir mais de um milhão de simpatizantes, precisa de apoio institucional, mas quase sempre se realiza na raça. Nunca foi fácil e em quase meio século de oficialização municipal enfrentou toda sorte de obstáculos, inclusive ameaça de cancelamento e uma série de restrições.

Iemanjá gosta, merece e precisa das oferendas. Um orixá que não é cultuado tende a desaparecer. Mais do que sua morada, o mar é a própria divindade, portanto, o cuidado e a preservação do meio ambiente devem ser considerados uma forma de devoção.

Fica a reflexão. Não se deve fazer do lixo uma oferenda, mas não se pode supor que oferenda seja lixo. Afro-religiosos, de todos as vertentes, precisam adquirir ou ampliar sua consciência ambiental. Por outro lado, aqueles que não praticam nossa fé não podem nos imputar como exclusivos problemas que fazem parte do cotidiano de qualquer cidadão.

O racismo e a intolerância religiosa não podem ser premissas para nos julgar. Tenho certeza de que a comunidade umbandista está aberta ao debate, mas consciência ambiental cabe a todo ser humano.

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